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Uma reflexão sobre o uso de materiais
concretos e jogos no Ensino da Matemática
Dario Fiorentini e
Maria Ângela Miorim
Docentes da Faculdade de Educação da UNICAMP
Publicado no Boletim SBEM-SP
Ano 4 - nº 7
As dificuldades encontradas por alunos e professores no processo
ensino-aprendizagem da matemática são muitas e conhecidas. Por um
lado, o aluno não consegue entender a matemática que a escola lhe
ensina, muitas vezes é reprovado nesta disciplina, ou então,
mesmo que aprovado, sente dificuldades em utilizar o conhecimento
"adquirido", em síntese, não consegue efetivamente ter
acesso a esse saber de fundamental importÂncia.
O professor, por outro lado, consciente de que não consegue
alcançar resultados satisfatórios junto a seus alunos e tendo
dificuldades de, por si só, repensar satisfatoriamente seu fazer
pedagógico procura novos elementos - muitas vezes, meras receitas de
como ensinar determinados conteúdos - que, acredita, possam melhorar
este quadro. Uma evidência disso é, positivamente, a
participação cada vez mais crescente de professores nos
encontros, conferências ou cursos.
São nestes eventos que percebemos o grande interesse dos professores
pelos materiais didáticos e pelos jogos. As atividades programadas que
discutem questões relativas a esse tema são as mais procuradas.
As salas ficam repletas e os professores ficam maravilhados diante de um novo
material ou de um jogo desconhecido. Parecem encontrar nos materiais a
solução - a fórmula mágica- para os problemas que
enfrentam no dia-a-dia da sala de aula.
O professor nem sempre tem clareza das razões fundamentais pelas quais
os materiais ou jogos são importantes para o ensino-aprendizagem da
matemática e, normalmente são necessários, e em que
momento devem ser usados.
Geralmente costuma-se justificar a importÂncia desses elementos apenas
pelo caráter "motivador" ou pelo fato de se ter "ouvido
falar" que o ensino da matemática tem de partir do concreto ou,
ainda, porque através deles as aulas ficam mais alegres e os alunos
passam a gostar da matemática.
Entretanto, será que podemos afirmar que o material concreto ou jogos
pedagógicos são realmente indispensáveis para que ocorra
uma efetiva aprendizagem da matemática?
Pode parecer, a primeira vista, que todos concordem e respondam sim a pergunta.
Mas isto não é verdade. Um exemplo de uma posição
divergente é colocada por Carraher & Schilemann (1988), ao
afirmarem, com base em suas pesquisas, que "não precisamos de
objetos na sala de aula, mas de objetivos na sala de aula, mas de
situações em que a resolução de um problema
implique a utilização dos princípios
lógico-matemáticos a serem ensinados" (p. 179). Isto
porque o material "apesar de ser formado por objetivos, pode ser
considerado como um conjunto de objetos 'abstratos' porque esses objetos
existem apenas na escola, para a finalidade de ensino, e não tem
qualquer conexão com o mundo da criança"
(p. 180). Ou seja, para estes pesquisadores, o concreto para a criança
não significa necessariamente os materiais manipulativos, mas as
situações que a criança tem que enfrentar socialmente.
As colocações de Carraher & Schilemann nos servem de alerta:
não podemos responder sim aquelas questões sem antes fazer uma
reflexão mais profunda sobre o assunto.
Com efeito, sabemos que existem diferentes propostas de trabalho que possuem
materiais com características muito próprias, e que os utilizam
também de forma distinta e em momentos diferentes no processo
ensino-aprendizagem.
Qual seria a razão para a existência desta diversidade?
Na verdade, por trás de cada material, se esconde uma visão de
educação, de matemática, do homem e de mundo; ou seja,
existe, subjacente ao material, uma proposta pedagógica que o justifica.
O avanço das discussões sobre o papel e a natureza da
educação e o desenvolvimento da psicologia, ocorrida no seio das
transformações sociais e políticas contribuíram
historicamente para as teorias pedagógicas que justificam o uso na sala
de aula de materiais "concretos" ou jogos fossem, ao longo dos anos,
sofrendo modificações e tomando feições diversas.
Até o séc. XVI, por exemplo, acreditava-se que a capacidade de
assimilação da criança era idêntica ã do
adulto, apenas menos desenvolvida. A criança era considerada um adulto
em miniatura. Por esta razão, o ensino deveria acontecer de forma a
corrigir as deficiências ou defeitos da criança. Isto era feito
através da transmissão do conhecimento. A aprendizagem do aluno
era considerada passiva, consistindo basicamente em memorização
de regras, formulas, procedimentos ou verdades localmente organizadas. Para o
professor desta escola - cujo o papel era o de transmissor e expositor de um
conteúdo pronto e acabado - o uso de materiais ou objetos era
considerado pura perda de tempo, uma atividade que perturbava o silêncio
ou a disciplina da classe. Os poucos que os aceitavam e utilizavam o faziam de
maneira puramente demonstrativa, servindo apenas de auxiliar a
exposição, a visualização e
memorização do aluno. Exemplos disso são: o
flanelógrafo, as réplicas grandes em madeira de figuras
geométricas, desenhos ou cartazes fixados nas paredes... Em
síntese, estas constituem as bases do chamado "Ensino
Tradicional" que existe até hoje em muitas de nossas escolas.
Já no séc. XVII, este tipo de ensino era questionado. Comenius
(1592-1671) considerado o pai da Didática, dizia em sua obra
"Didática Magna" (1657) que "...ao invés de livros
mortos, por que não podemos abrir o livro vivo da natureza? Devemos
apresentar a juventude as próprias coisas, ao invés das suas
sombras"
(Ponce, p.127).
No séc. XVIII, Rousseau (1727 - 1778), ao considerar a
Educação como um processo natural do desenvolvimento da
criança, ao valorizar o jogo, o trabalho manual, a experiência
direta das coisas, seria o percursor de uma nova concepção de
escola. Uma escola que passa a valorizar os aspectos biológicos e
psicológicos do aluno em desenvolvimento: o sentimento, o interesse, a
espontaneidade, a criatividade e o processo de aprendizagem, as vezes
priorizando estes aspectos em detrimento da aprendizagem dos conteúdos.
Ë no bojo dessa nova concepção de educação e
de homem que surgem, primeiramente, as propostas de Pestalozzi (1746 - 1827) e
de seu seguidor Froebel (1782 - 1852). Estes foram os pioneiros na
configuração da "escola ativa". Pestalozzi acreditava
que uma educação seria verdadeiramente educativa se proviesse da
atividade dos jovens. Fundou um internato onde o currículo adotado dava
ênfase à atividades dos alunos como canto, desenho, modelagem,
jogos, excursões ao ar livre, manipulação de objetos onde
as descrições deveriam preceder as definições; o
conceito nascendo da experiência direta e das operações
sobre as coisas [ 4, pp. 17 - 18].
Posteriormente, Montessori (1870 - 1952) e Decroly (1871 - 1932), inspirados em
Pestalozzi iriam desenvolver uma didática especial (ativa) para a
matemática.
A médica e educadora italiana, Maria Montessori, após
experiências com crianças excepcionais, desenvolveria, no
início deste século, vários materiais manipulativos
destinados a aprendizagem da matemática. Estes materiais, com forte
apelo a "percepção visual e tátil", foram
posteriormente estendidos para o ensino de classes normais. Acreditava
não haver aprendizado sem ação: "Nada deve ser dado a
criança, no campo da matemática, sem primeiro apresentar-se a ela
uma situação concreta que a leve a agir, a pensar, a
experimentar, a descobrir, e daí, a mergulhar na
abstração"
(Azevedo, p. 27)
Entre seus materiais mais conhecidos destacamos: "material dourado",
os "triÂngulos construtores" e os "cubos para
composição e decomposição de binômios,
trinômios".
Decroly, no entanto, não põe nada na mão da criança
materiais para que ela construa mas sugere como ponto de partida
fenômenos naturais (como o crescimento de uma planta ou a quantidade de
chuva recolhida num determinado tempo, para por exemplo, introduzir
medições e contagem). Ou seja, parte da observação
global do fenômeno para, por análise, decompô-lo.
Castelnuovo (1970) denomina o método Decroly de "ativo -
analítico" enquanto que o de Montessori de "ativo -
sintético" (sintético porque construtivo). Em ambos os
métodos falta, segundo Castelnuovo, uma "certa coisa" que
conduz a criança à indução própria do
matemático. é com base na teoria piageteana que aponta para outra
direção: A idéia fundamental da ação
é que ela seja reflexiva..."que o interesse da criança
não seja atraído pelo objeto material em si ou pelo ente
matemático, senão pelas operações sobre o objeto e
seus entes. Operações que, naturalmente, serão primeiro de
caráter manipulativo para depois interiorizar-se e posteriormente passar
do concreto ao abstrato. Recorrer a ação, diz Piaget, não
conduz de todo a um simples empirismo, ao contrário, prepara a
dedução formal ulterior, desde que tenha presente que a
ação, bem conduzida, pode ser operatória, e que a
formalização mais adiantada o é também"
[4, pp. 23-28].
Assim interpreta Castelnuovo, o 'concreto' deve ter uma dupla finalidade : "exercitar
as faculdades sintéticas e analíticas da criança"
; sintética no sentido de permitir ao aluno construir o conceito a
partir do concreto; analítica por que, nesse processo, a criança
deve discernir no objeto aqueles elementos que constituem a
globalização. Para isso o objeto tem de ser móvel, que
possa sofrer uma transformação para que a criança possa
identificar a operação - que é subjacente [4, pp. 82 - 91]
Resumindo, Castelnuovo defende que "o material deverá ser artificial
e também ser transformável por continuidade"
(p. 92). Isto porque recorrermos aos fenômenos naturais, como sugere
Decroly, nele há sempre continuidade, porém, são limitados
pela própria natureza e não nos levam a extrapolar, isto
é, a idealizar o fenômeno por outro lado, podem conduzir ã
idéia de infinito, porem lhes faltam o caráter de continuidade e
do movimento (p. 92).
Para contrapor ao que acabamos de ver, gostaríamos de dizer algumas
palavras sobre outra corrente psicológica: o behaviorismo, que
também apresenta sua concepção de material, e
principalmente, de jogo pedagógico. Segundo Skinner (1904), a
aprendizagem é uma mudança de comportamento (desenvolvimento de
habilidades ou mudanças de atitudes) que decorre como resposta a
estímulos esternos, controlados por meio de reforços. A
matemática, nesta perspectiva, é vista, muitas vezes, como um
conjunto de técnicas, regras, fórmulas e algoritmos que os alunos
tem de dominar para resolver os problemas que o mundo tecnológico
apresenta.
Os Métodos de ensino enfatizam, além de técnicas de ensino
como instrução programada (estudo através de fichas ou
módulos instrucionais) o emprego de tecnologias modernas audiovisuais
(retroprojetor, filmes, slides ...) ou mesmo computadores.
Os jogos pedagógicos, nesta tendência, seriam mais valorizados que
os materiais concretos. Eles podem vir no início de um novo
conteúdo com a finalidade de despertar o interesse da criança ou
no final com o intuito de fixar a aprendizagem e reforçar o
desenvolvimento de atitudes e habilidades.
Para Irene Albuquerque (1954) o jogo didático "..,serve para
fixação ou treino da aprendizagem. é uma variedade de
exercício que apresenta motivação em si mesma, pelo seu
objetivo lúdico... Ao fim do jogo, a criança deve ter treinado
algumas noções, tendo melhorado sua aprendizagem"
(p. 33)
Veja também a importÂncia dada ao jogo na 'formação
educativa' do aluno "... através do jogo ele deve treinar
honestidade, companheirismo, atitude de simpatia ao vencedor ou ao vencido,
respeito as regras estabelecidas, disciplina consciente, acato às
decisões do juiz..."
(Idem, p. 34)
Esta diversidade de concepções acerca dos materiais e jogos
aponta para a necessidade de ampliar nossa reflexão.
Queremos dizer que, antes de optar por um material ou um jogo, devemos refletir
sobre a nossa proposta político-pedagógica; sobre o papel
histórico da escola, sobre o tipo de aluno que queremos formar, sobre
qual matemática acreditamos ser importante para esse aluno.
O professor não pode subjugar sua metodologia de ensino a algum tipo de
material porque ele é atraente ou lúdico. Nenhum material
é válido por si só. Os materiais e seu emprego sempre
devem, estar em segundo plano. A simples introdução de jogos ou
atividades no ensino da matemática não garante uma melhor
aprendizagem desta disciplina.
Ë freqüente vermos em alguns professores uma
mistificação dos jogos ou materiais concretos. Até mesmo
na Revista "Nova Escola" esta mistificação, pode ser
percebida como mostra o seguinte fragmento: "Antes a matemática era
o terror dos alunos. Hoje ... as crianças adoram porque se divertem
brincando, ao mesmo tempo que aprendem sem decoreba e sem traumas..."
Mariana Manzela (8 anos) confirma isto : "é a matéria que eu
mais gosto porque tem muitos jogos"
[ No.39, p. 16].
Ora, que outra função tem o ensino de matemática
senão o ensino da matemática? Ë para cumprir esta tarefa
fundamental que lançamos mão de todos os recursos que dispomos.
Ao aluno deve ser dado o direito de aprender. Não um 'aprender'
mecÂnico, repetitivo, de fazer sem saber o que faz e por que faz. Muito
menos um 'aprender' que se esvazia em brincadeiras. Mas um aprender
significativo do qual o aluno participe raciocinando, compreendendo,
reelaborando o saber historicamente produzido e superando, assim, sua
visão ingênua, fragmentada e parcial da realidade.
O material ou o jogo pode ser fundamental para que isto ocorra. Neste sentido,
o material mais adequado, nem sempre, será o visualmente mais bonito e
nem o já construído. Muitas vezes, durante a
construção de um material o aluno tem a oportunidade de aprender
matemática de forma mais efetiva.
Em outro momentos, o mais importante não será o material, mas
sim, a discussão e resolução de uma situação
problema ligada ao contexto do aluno, ou ainda, à discussão e
utilização de um raciocínio mais abstrato.
Bibliografias
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ALBUQUERQUE, Irene de. Metodologia da Matemática. Rio de
Janeiro : Ed. Conquista, 1953
2.
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In: Ver. de Educação & Matemática no. 3, 1979 (pp. 26
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3.
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Cortez, 1988.
4.
CASTELNUOVO, E. Didática de la Matemática Moderna. México:
Ed. Trillas, 1970
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DIENNES, Z. P. Aprendizado moderno da matemática. Rio de
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6.
PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. São
Paulo: Cortez, 1985.
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SAVIANI, D. Escola e democracia. São Paulo: Cortez 1985.
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