|
El País
GEORGE JOHNSON do "New York Times",
para a Folha de S.Paulo de 28/12/2001
Cientistas do Centro de Pesquisa Almaden da IBM, em San José, Califórnia,
anunciaram ter executado o mais complexo cálculo já realizado por um
dispositivo atômico. Eles fatoraram o número 15 usando apenas sete átomos.
O feito é um marco na futura construção de poderosos computadores com a
atordoante capacidade de calcular usando propriedades quânticas, que governam
átomos e partículas elementares.
A resposta em si obviamente não foi uma surpresa: o cálculo fatorial chegou a 3
e 5, os números que dividem 15 sem deixar resto. Mas o exercício que levou a
esse resultado simples _a primeira fatoração de um número com um aparelho
exótico chamado de computador quântico_ mantém a promessa de, um dia, resolver
problemas hoje considerados impossíveis e de decifrar códigos hoje
aparentemente impenetráveis.
Embora sejam pequenas, as chaves que manipulam uns e zeros nos computadores mais
modernos atuais consistem, cada uma, de bilhões de átomos.
No experimento de computação quântica, os cientistas fizeram o cálculo
manipulando átomos individuais, o equivalente submicroscópico das pedras do
ábaco. Isso confirmou uma grande vantagem: por causa da natureza da mecânica
quântica, conjunto de leis que regulamenta o reino atômico, os múltiplos passos
do procedimento puderam ser executados simultaneamente.
Se esse paralelismo puder ser estendido a uma escala maior, um esforço nada
trivial, números com centenas de dígitos poderiam ser fatorados facilmente.

Como muitos esquemas usados para proteger informação eletrônica são baseados na
quase impossibilidade de fatorar números grandes, construir um computador
quântico funcional pode ser não só um feito de matemática, mas também de
criptografia, potencialmente colocando muitas das informações mais secretas do
mundo em perigo.
"Agora acreditamos que a computação quântica vai ser um fato", disse Isaac L.
Chuang, que liderou a equipe de pesquisadores, da IBM e da Universidade
Stanford (EUA). "Isso é surpreendente para mim. Comecei pensando que a
computação quântica não fosse ser um empreendimento viável." Ele se diz
contente por terem provado que ele estava errado.
Peter Shor, o cientista da AT&T Laboratories que mostrou há sete anos que a
fatoração quântica era possível em teoria, qualificou o novo avanço, relatado
recentemente na revista "Nature",
de "um feito impressionante". Mas ele dá um aviso aos otimistas: "Ainda há uma
longa estrada à frente antes que possamos desenvolver computadores quânticos
úteis".
Fatorar, ou seja, encontrar a seqüência dos divisores exatos de um número, é o
que os matemáticos chamam de um problema intratável. É fácil fatorar números
pequenos mas, conforme eles aumentam, o tempo de cálculo cresce
exponencialmente.
Em 1999, especialistas estabeleceram um recorde ao fatorar um número de 155
dígitos - um feito que exigiu 292 computadores operando por metade de um ano.
Por causa da natureza exponencial do problema, fatorar um número duas vezes
maior levaria centenas de milhões de anos.
Os criptógrafos se apoiaram nesse fato para desenvolver códigos considerados
indecifráveis. Aquele que envia uma mensagem pega dois grandes números primos
(aqueles só divisíveis por um e por eles mesmos) e os multiplica. Isso produz
um número ainda maior, que se torna a chave usada para encriptar o texto.
Quebrar o código envolve trabalhar no sentido inverso para obter os fatores
originais, um procedimento que exige cálculos suficientes para fritar um
supercomputador.

A computação quântica trabalha por regras diferentes. Em 1994, Shor inventou um
algoritmo - uma seqüência de operações - que permitiria a um computador
quântico fazer os cálculos simultaneamente, fatorando números com centenas de
dígitos em questão de minutos.
Isso é possível porque os contadores de um computador quântico são feitos de
átomos, que podem ser induzidos (elétrica ou magneticamente) a apontar para
cima ou para baixo, indicando 1 ou 0, os dois símbolos da aritmética binária.
Mais importante, a mecânica quântica permite que ele faça isso simultaneamente,
indicando 1 e 0 ao mesmo tempo.
Logo, dois átomos podem registrar quatro valores: 00, 01, 10 e 11 (os números de
0 a 3 em linguagem binária). Três átomos podem conter oito números, quatro
podem ter 16. Girar os átomos para cima ou para baixo em vários padrões faz com
que um cálculo seja realizado - em todos os números ao mesmo tempo.
Com sete átomos, os pesquisadores da IBM obtiveram um pequeno aparelho capaz de
simultaneamente registrar 128 números diferentes.

No experimento, Chuang e seus colegas usaram uma molécula consistindo
primariamente de átomos de flúor e carbono.
Um frasco de líquido contendo quatrilhões de moléculas foi colocado dentro de
uma máquina chamada espectrômetro de ressonância nuclear magnética, que usa a
mesma tecnologia existente em hospitais. Ao bombardear as moléculas com a
seqüência precisa de pulsos eletromagnéticos, os cientistas cuidadosamente
giraram os átomos entre 1 e 0.
Fatorar rapidamente números de tamanhos usados em criptografia iria exigir
manipulação delicada de dezenas de milhares de átomos, e a menor perturbação
poderia causar erro no cálculo. Mas os pesquisadores estão otimistas com a
demonstração. "Ainda temos de ir bem além disso", diz Chuang. "Mas ao menos
provamos que é possível."
|