Um cálculo
no meio do caminho
FSP 25 de fevereiro, 2003 Por Flávio Ferreira, Paulo de Camargo (free lancer)
O problema do ensino da matemática começa a ter sua equação invertida.
Não são os estudantes que não aprendem, são os professores que não
ensinam. A afirmação poderia soar revanchista se feita por aqueles
de nós incapazes de definir rapidamente hipotenusa ou uma mera raiz
quadrada. Mas não se trata de reação tardia de maus alunos, e sim
da constatação dos próprios educadores.
A consciência da dificuldade de transmitir o conhecimento matemático
não é nova. Talvez remonte aos tempos em que Euclides o maior matemático
da Antiguidade greco-romana fundou sua escola em Alexandria, cerca
de três séculos antes de Cristo. A novidade é a urgência em enfrentar
a questão.
Lidar com números requer uma capacidade de apreender abstrações. O
resultado desse aprendizado, porém, é bem concreto. A sociedade contemporânea
cobra um mínimo de conhecimento matemático. Sem o básico, a própria
cidadania fica ameaçada.
Tocar um negócio, acompanhar a evolução de uma campanha eleitoral,
controlar o orçamento doméstico, verificar o rendimento de uma aplicação
financeira, tudo exige algum trânsito pelo mundo dos algarismos, das
proporções, da linguagem matemática.
| Alexandre
Schneider/Folha Imagem |
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| A auxiliar de enfermagen
Myriam da Silva Bevilaqua |
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Às vezes, até uma promoção profissional depende da matemática. É o
caso da auxiliar de enfermagem Myriam da Silva Bevilaqua, 61, que
trabalha no Hospital do Mandaqui, em São Paulo. Ela voltou a estudar
matemática para concluir o supletivo de ensino médio e poder, assim,
ser promovida a técnica de enfermagem.
Myriam Bevilaqua não está sozinha em sua dificuldade com os números.
Ao contrário. As principais provas escolares mostram que, nesse campo,
há uma pedra no meio do caminho do brasileiro (a pedra está associada
ao cálculo até pela etimologia: "calculu", do latim, significa pedrinha).
Em 2001, nas provas do Saeb (Sistema Nacional de Ensino Básico), os
alunos da 4ª série do ensino fundamental acertaram, em média, 30%
das questões de matemática. No ano passado, na primeira fase da Fuvest,
os 130 mil alunos tiveram acerto médio de apenas 20%.
As dúvidas não dirimidas nas salas de aula em geral acompanham o indivíduo
pelo resto da vida. A ignorância tem preço alto, estabelecido numa
escala crescente de exclusão dos círculos mais privilegiados da sociedade.
Sempre se soube, até intuitivamente, que a grande maioria não entende
a mais rasteira matemática. A impressão foi agora confirmada por uma
pesquisa nacional, a que a Folha teve acesso, que mostrou que
apenas pouco mais de um quinto dos brasileiros (21%) tem pleno domínio
das habilidades matemáticas básicas. Assim mesmo, a "aprovação" desse
contingente só foi possível porque a pesquisa avaliou apenas a funcionalidade
das habilidades básicas em matemática. Bastava o entrevistado acertar
uma regra de três ou demonstrar familiaridade com representações gráficas,
como mapas e tabelas, que passava a integrar essa, por assim dizer,
elite.
A pesquisa Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), realizada
pelo Instituto Paulo Montenegro, do Ibope, em parceria com a ONG Ação
Educativa, procurou adequar o conceito de alfabetismo funcional à
matemática. Para tanto, entrevistou 2.000 pessoas de 15 a 64 anos,
que tentaram realizar tarefas de complexidade variada. Quase quatro
quintos deles (79%) revelaram apenas algum grau de alfabetismo matemático.
O trabalho subdividiu esse grupo em três níveis. Cerca de um terço
(32%) conseguiu apenas desempenhar tarefas simples, como anotar um
número de telefone ditado por alguém, ver as horas no relógio de ponteiros
e verificar datas num calendário.
| Fotos Pedro Azevedo/Folha
Imagem |
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| O vendedor de balas Francisco
de Souza Moraes |
A maioria (44%) é capaz de resolver problemas que envolvem operações
de adição e subtração com valores em dinheiro. Nessa situação, estão
pessoas como o vendedor de balas Francisco de Souza Moraes, 38, que,
apesar de ter concluído a primeira série do ensino fundamental, diz
não sabe ler nem escrever. Vindo do Ceará, está há seis anos em São
Paulo e, dominando as quatro operações, consegue calcular o ganho
na venda dos 18 produtos de sua banca.
Esses dois grupos são formados por indivíduos com conhecimento funcional.
No terceiro grupo, formado por 3% dos entrevistados, ficaram os analfabetos,
incapazes de, ao menos, anotar um número de telefone. Em pesquisa
semelhante, realizada para avaliar a habilidade no uso da leitura
e da escrita, 9% foram considerados analfabetos pelo mesmo critério.
Essa comparação permitiu que, no meio acadêmico, os resultados da
pesquisa sobre conhecimento matemático não fossem considerados tão
ruins. Para alguns educadores, porém, essa percepção complacente em
nada contribui para tornar realidade a ambição de desenvolvimento
científico-tecnológico do país. É o caso do professor Antônio José
Lopes, ou Bigode, como é chamado.
Autor de livros didáticos para o ensino fundamental, Bigode procura
desenvolver uma conceituação mais exigente de alfabetismo funcional
em matemática. "Nossa situação é um caos estrutural", afirma Bigode,
que propõe um teste ao leitor na página 14.
O problema não está restrito ao Brasil, mas aqui a situação é particularmente
grave. Em comparações internacionais, como a realizada pelo Educacional
Testing Service, dos Estados Unidos, o Brasil sempre desponta entre
as últimas posições. Para Bigode, há consenso sobre a causa do problema:
a falha na educação. "A matemática da escola não diz nada para o aluno
sobre o mundo que o cerca."
A crítica vem dos tempos da matemática moderna, que, concebida nos
EUA, marcou profundamente o sistema educacional brasileiro até a década
de 80. "A herança da matemática moderna foi um ensino centrado no
cálculo mecânico, carente de significado e construído em degraus estanques",
avalia o professor Luis Imenez.
A crítica ao movimento é quase uma unanimidade no meio acadêmico,
mas há quem faça ressalvas. "Não era um movimento intrinsecamente
errado, mas foi abortado ainda no seu início, pois ninguém se preocupou
em preparar os professores e a sociedade", diz o pesquisador Ubiratan
D'Ambrosio. "Esse é um problema comum em todas as reformas: só depois
pensam na formação do professor."
Na tradição brasileira, a formação do professor depende sobretudo
do livro didático. Esse material de apoio tem sido renovado. Nos últimos
cinco anos, surgiram diversos livros produzidos a partir de concepções
mais modernas. Muitos são recomendados pelo Ministério da Educação.
Mas há resistência tanto de pais como de professores educados à moda
antiga.
Alguns não se conformam, por exemplo, com a pouca importância que
hoje se dá às frações. Muitos implicam com a liberação do uso da calculadora
em sala de aula, algo de que Bigode não abre mão. "O aluno precisa
aprender a usá-la com inteligência", diz. "Qual é o sentido de ensinar,
hoje, como calcular à mão a raiz quadrada de 2?", pergunta. Autores
contemporâneos tendem a concordar com ele. Acham que o aluno deve
perder menos tempo com contas e investir mais na resolução criativa
de problemas, usando o raciocínio e aprendendo a fazer relações contextualizadas.
A partir dos avanços da pedagogia, os matemáticos têm usado diferentes
recursos, como jogos, histórias, informática, relações culturais,
ligações com o cotidiano e modelos matemáticos associados a situações
reais.
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| O artista plástico Antonio Peticov,
em seu ateliê |
A forma tradicional de ensinar matemática deixou muitas vítimas pelo
caminho. Poucas conseguiram reagir, como o artista plástico Antonio
Peticov, que repetiu cinco vezes a 2ª série do ensino fundamental
por não saber matemática. "Tive um professor que disse, no primeiro
de aula, que toda a classe seria reprovada", lembra. "A matemática
tem de ser ensinada docemente, senão trava qualquer pessoa."
A ironia é que Peticov, ao contrário do que seu registro escolar sugere,
tem especial talento para números: tornou-se famoso internacionalmente
por desenvolver uma arte baseada em diversos conceitos matemáticos,
como a regra de ouro —um parâmetro de proporcionalidade que
foi um paradigma estético da arte clássica. Seu interesse levou-o
a ser convidado a integrar o seleto grupo da Lewis Carroll Society,
que reúne especialistas em matemática recreativa.
Autor de "Alice no País das Maravilhas", Carroll não dispensava lições
de matemática e lógica em seu texto. Em certo momento, Alice está
perdida e pergunta aonde deve ir. A resposta que obtém é também uma
pergunta: "Para onde você quer ir?". Ela diz: "Para qualquer lugar".
"Ora, então tome qualquer caminho" é a solução que recebe para o seu
problema. "Essa é uma linda lição de lógica matemática", diz Peticov.
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| José Roberto Sadek, superintendente
do Instituto Itaú Cultural |
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Da mesma opinião compartilha o cineasta e arquiteto José Roberto Neffa
Sadek, hoje superintendente do Itaú Cultural. Depois de sofrer na
mão de professores, Sadek persistiu em sua paixão e se tornou diretor
de um dos projetos mais premiados do vídeo educativo brasileiro, a
série "Arte & Matemática" (2001).
Para atender a alunos como esses, pesquisadores vêm se empenhando
nos últimos 20 anos em abrir novas portas para o aprendizado, como
a etnomatemática, que se baseia no respeito às raízes culturais do
aluno, e outras ramificações da ciência matemática. "O grande desafio
é fazer essa pesquisa chegar à sala de aula", diz a matemática Célia
Maria Carolino Pires, da Sbem (Sociedade Brasileira para o Ensino
da Matemática). "É um processo lento e pontual, mas que começa
a se disseminar", avalia a consultora Maria Ignez Diniz, doutora pela
USP e diretora do Mathema, um instituto de pesquisa que capacita professores
em diversas regiões. "O problema é que este país é um planeta, e o
ensino de matemática virou uma colcha de retalhos", afirma.
Entre formas antigas e novas de ensinar matemática, o professor muitas
vezes fica confuso. Um exemplo típico é a chamada contextualização,
apregoada pelos Parâmetros Nacionais Curriculares e por grande parte
dos educadores modernos. Muitos acham que contextualizar é encontrar
aplicações práticas para a matemática a qualquer preço. "Já encontramos
alunos que sabiam fazer frações usando pizzas e bolos, mas não utilizando
números", diz Ignez Diniz.
Outros críticos apontam o descaso com os conteúdos. Para Cláudio Ossami,
que dirigiu a comissão de graduação do Instituto de Matemática da
USP, as novas estratégias de ensino obtêm mais sucesso com os conteúdos
mais básicos. "Não há como ensinar funções através de jogos", diz.
Para ele, a solução está no equilíbrio. "Já erramos por tornar o ensino
muito formal, mas agora se contextualiza tanto que se perde a perspectiva
do que está sendo ensinado."
A polêmica sobre o ensino da matemática não se limita ao Brasil. "Em
Portugal, na Europa e na América do Norte, há duas grandes correntes:
uma defende o aperto da malha da avaliação e outra procura tornar
a matemática mais interessante", afirma o pesquisador João Pedro da
Ponte, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Enquanto as grandes redes de ensino público e privado ainda não incorporaram
por completo a nova visão da matemática, a iniciativa de mudar quase
sempre parte de uma insatisfação individual do professor com as formas
tradicionais de ensinar.
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| O professor Leôncio Fernandes
Pascoal e alguns dos alunos que participam do projeto |
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Foi o que aconteceu na Escola Estadual Professora Lucia Akemi Miya
e no Centro Educacional Escola Viva, em Itapecerica da Serra (SP).
Nessas escolas, o professor Leôncio Fernandes Pascoal, 28, utilizou
diversos softwares gráficos e pedagógicos para ensinar aos alunos
conceitos da álgebra e da geometria. O estudo durou um semestre e
partiu de fotografias de prédios do centro de São Paulo feitas pelos
alunos. "Sempre procurei formas diferentes de ensinar", conta Pascoal.
O caso de Pascoal não é isolado. Desde 2001, quase 15 mil professores
realizaram voluntariamente oficinas de capacitação em informática
pedagógica voltada para a matemática. Nas oficinas, aprenderam a utilizar
softwares como o Cabri Geomètre, um programa que, desenvolvido na
França, se tornou sensação entre os educadores por permitir que o
aluno pesquise e desenvolva conhecimentos de geometria dentro da perspectiva
do construtivismo.
Para Maria da Conceição Fonseca, professora da Faculdade de Educação
da Universidade Federal de Minas Gerais e uma das coordenadoras do
Inaf, o processo de mudança ocorrerá com certeza, sobretudo se impulsionado
pela crescente disputa de vagas no mercado de trabalho.
Conforme Adilson Simoni, coordenador do Núcleo de Estudos de Graduação
da USP, se antes o destino dos matemáticos era a pesquisa, hoje, cada
vez mais, o mercado financeiro se interessa pelos formandos dessa
área. "Desde o terceiro ano da graduação, os alunos começam a ser
procurados", diz.
Na outra ponta do sistema educacional, o domínio de habilidades básicas
também faz muita falta. É essa demanda que explica o desempenho de
redes de ensino como a Kumon. Criticada por educadores por basear-se
em fórmulas tradicionais, como a repetição de exercícios, a escola
encontra cada vez maior número de adeptos. Em 2002, ano em que as
escolas particulares perderam alunos em São Paulo, a rede Kumon cresceu
14%, chegando a 90 mil estudantes. "Nosso método busca desenvolver
alunos autodidatas, disciplinados e autoconfiantes", explica Renato
La Selva, gerente de marketing do grupo. O Kumon não se embasa em
nenhuma teoria pedagógica. É um método prático, criado no Japão por
um professor que queria ajudar seu filho.
Por maiores que sejam os esforços, a matemática, para muitos, continua
sendo um bicho-de-sete-cabeças. Vera Masagão, 44, coordenadora-geral
da ONG Ação Educativa, avalia que o temor em relação à matéria poderia
ser reduzido se, nas salas de aula, a matemática fosse mais associada
ao cotidiano dos estudantes. É o que afirma também o coordenador
de matemática da Escola Móbile, Antonio de Freitas da Corte. Na escola,
um dos objetivos do ensino da matemática é a interpretação da realidade
que vivem os alunos. Em 2002, todas as turmas estiveram envolvidas
no acompanhamento das pesquisas eleitorais. Chegaram mesmo a preparar,
aplicar e analisar uma pesquisa num universo de 2.000 pessoas, ao
mesmo tempo estudando a matemática necessária para essa operação.
Qualquer que seja a linha a ser adotada, o certo é que a necessidade
de renovação é consensual entre os pesquisadores. O surgimento, de
tempos em tempos, de novos métodos de ensino é uma tentativa de resposta
a essa dificuldade intrínseca de estimular o raciocínio abstrato sem
perder o vínculo com o mundo real.
Saiba mais:
- www.tvcultura.com.br/artematematica:
site do programa "Arte & Matemática", da TV Cultura, premiado como
o melhor vídeo educativo de 2001 em festivais no Japão e na China
- www.fi.uu.nl: site de um dos grupos
de ensino de matemática mais ativos do mundo, na Holanda, criado pelo
matemático Hans Freudenthal (1905-1990)
- www.sbem.com.br: site da Sociedade
Brasileira para o Ensino da Matemática, com links, artigos e informações
sobre cursos e congressos
- www.apm.pt: site da Associação de
Professores de Matemática de Portugal, um ativo grupo de discussões
sobre o ensino dessa ciência
- www.somatematica.com.br:
portal de ensino, com jogos, atividades e biografias de matemáticos,
entre outros
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